Pequenas Prosas

Aqueles pequenos prazeres da vida do dia-a-dia em pequenos textos.

A minha fotografia
Nome: Nuno Rebelo Santos
Localização: Paço de Arcos, Portugal

06 Dezembro 2007

Observar o mar num dia tempestuoso de inverno


A noite foi de chuva e vento, o dia nasceu escuro, húmido e frio. Enquanto as gentes procuram o aconchego de um qualquer templo comercial nós rumamos à beira-mar. No esburacado parque de estacionamento de terra, improvisado em frente à praia, não se aglomeram centenas de carros, motos, bicicletas e respectivos ocupantes. Está vazio de civilização ocupado apenas por um ou dois cães vadios que, com curiosidade, se aproximam ziguezagueando entre as poças. Ao abrir a porta da viatura sentimos desde logo um forte vento, pequenas agulhas quase, a bater na cara. Saímos. Fechamos melhor, o mais possível, o casaco e, de mãos nos bolsos, aproximamo-nos do mar. Não muito, apenas uns passos até uma pequena pedra ou aos primeiros metros de areia. E lá ficamos. Olhando as ondas, uma após outra, na sua forte investida, escutando o ronco do mar enquanto se desfaz, escuro, desordenado e furioso, nas rochas e os gritos aflitivos das gaivotas que não se aventuram a voar para longe. Está frio, sentimo-lo nos pés, nas calças que, húmidas colam às pernas, e no nariz que dá o caracteristico sinal. Está frio e cinzento mas já não chove e o sol ameaça romper. Um, dois,..., são poucos e momentaneos os raios que surjem por entre as nuvens. São poucos e fracos mas suficientes para conferir ao céu e ao mar uma luz inigualavel, um brilho irreal que aquece o dia e conforta a alma.

02 Outubro 2006

O jornal de sábado


Normalmente é ao sábado mas por vezes acontece ao domingo. A meio da manhã vamos à rua tomar calmamente o pequeno-almoço à pastelaria do bairro e, no regresso compramos o jornal. Não o de todos os dias que lemos meio a correr na banca do costume, no metro ou na Internet e do qual sorvemos apenas as “gordas” mas o de sábado. O de sábado lê-se por inteiro e sempre no papel. Lêem-se as secções que habitualmente são desprezadas, lêem-se comentários de cronistas de quem se gosta e mesmo os de quem não suportamos, lê-se a revista, com as suas histórias mais ou menos sensacionalistas e as reportagens e entrevistas, resquícios de um jornalismo sério e de qualidade, e consulta-se o guia da semana para conhecer sugestões de restaurantes, de filmes e teatros em cartaz ou passeios dominicais. Lê-se tudo não escapando sequer a publicidade a grandes cadeias de supermercados e electrodomésticos ou empresas de telecomunicações. Lê-se tudo requisitando espaço à mesa da sala e tempo ao almoço que só se iniciará após a leitura estar completa. Por vezes, quando a refeição já terminou e a tarde convida ao ócio, volta-se a abrir o jornal e os seus suplementos para, em frente à televisão, junto à aparelhagem ou na varanda, nos dedicarmos ao que, numa primeira leitura se nos escapou. O prazer do jornal de sábado não é condicionado pelo que aconteceu no dia ou semana anterior mas tão só pelo facto de existir tempo e disposição para nele mergulharmos.

16 Setembro 2006

o primeiro golo numa imperial bem tirada


Começa muito antes disso. Num final de tarde, à saida do trabalho, das aulas ou noutra qualquer situação dá aquela vontade irresistivel de uma cerveja gelada. Desde logo começa o ritual. O local não é importante. Uma esplanada, uma qualquer tasca ou marisqueira, o café do amigo ou o bingo do clube. É ao gosto e costume de cada um. Pede-se: é uma imperial, se faz favor! E, enquanto o empregado se volta para a tirar, rodando, com arte, o copo que retirou do congelador, vamos antecipando o momento em que vai ser colocada à nossa frente, à nossa mercê. Vemos o gás a escapar-se furiosamente desde o fundo provocando um remoinho doirado, poisamos a mão no copo e, sentindo a sua frescura, levamo-lo à boca. O sabor é intenso, refrescante e, quase sem darmos por isso, fechamos por um segundo os olhos tentando prolongar o momento. Afastamos então o copo e, enquanto o observamos com ar aprovador, soltamos um pequeno estalo com a lingua seguido do aahhhh final. Poderiamos, nesse dia beber mais uma, duas ou mesmo todo o stock do estabelecimento mas uma coisa é mais do que certa: nenhum outro golo será, sequer, comparável ao primeiro.

24 Agosto 2006

um livro e um cálice de porto


O melhor fim para a tarde de chuva passada à lareira. Jantou-se, sem sair do lugar, algo simples e de confecção fácil pois, contagiados pela preguiça da tarde não houve forças para mais. Retira-se o volume ao televisor, deixando o apresentador do concurso familiar num fora de tempo filme mudo e avança-se para a garrafeira, indecisos. Hum, gin? Wiskey? Martini? Porto? Porto! Enche-se generosamente o cálice, pega-se no livro do momento e retoma-se o lugar. O livro é aberto mas, durante os próximos minutos, repousará ainda nos joelhos enquanto se observa os reflexos de mel provocados pelo fogo no vinho e se deberica os primeiros golos. Então sim, podemos embrenhar-nos na história deixando-nos embalar pelo ambiente ameno e pela candura do porto. Seremos, de tempos a tempos, despertos pela necessidade de remexer nas brasas dando-lhes nova vida até que já nada reste do livro, do porto, ou da noite.

23 Agosto 2006

uma tarde à lareira


Lá fora a chuva fustiga as janelas e o vento assobia nas árvores. São apenas 15 horas e as nuvens, escuras de tão carregadas, não permitem que mais que uma fraca luminosidade entre na sala. Acendem-se as luzes, dispõe-se calmamente a lenha na lareira e ateia-se o lume. É já com a madeira a crepitar que puxamos para mais perto, quase para dentro, o cadeirão e deixamo-nos ficar, dormitando, a aquecer o corpo e a alma enquanto o olhar vai vagueando entre as gotas que escorrem pelos vidros, o filme sem interesse que passa na televisão e o fogo que, como que entabulando conosco uma suave conversação, estala mesmo ali ao lado. É nesta deliciosa inutilidade que a tarde preguiçosamente se vai estendendo e deixando ver, por entre uma fugaz aberta, a lua que, sem que nos dessemos conta, já vai alta.

22 Agosto 2006

o ultimo gelado no santini

Este sabe ainda melhor. Porque sabemos que nos esperam 6 meses sem voltar a poder fazê-lo, é com uma certa nostalgia e já sob o frio outonal que subimos a avenida valbom e entramos, entre história e espelhos, na geladaria para nos demorarmos diante da duzia de opções e escolher o sabor que queremos recordar durante o inverno. Já com o eleito nas mãos saboreia-se o fresco do final de tarde com um passeio pelas ruas da vila que, agora já sem turistas, se tornou autentica, familiar. Há quem só regresse a Cascais na re-abertura da casa que fabrica, disse alguém um dia, os melhores gelados do mundo.

o primeiro gelado no santini


A primavera já se faz sentir e o calor já nos levou a comer mais de um gelado mas o verdadeiro inicio da época faz-se com a abertura da mais conceituada geladaria nacional. É o inicio de uma autentica romaria para degustar, sim porque um santini não se come nem se devora, sente-se. É aqui que se percebe todo o conceito do gelado, fresco, leve, simples e cheio de sabor. Sabor a sério, tal como nos lembramos dos morangos da terra da avó, do caramelo feito em casa de volta do velho e lento fogão, da nata. Ah a nata... e todos os outros. Tradicionais, claro, porque por estas bandas ninguem pede sabor a bolos ou bolachas nem coberturas de caramelo, pepitas ou frutos silvestres, um gelado de limão e framboesa é apenas isso, limão e framboesa numa bola única para não ser demasiado e para ficar a vontade de voltar...